Linha 875 sobrevive sem ponto final ou registro

Rio – no terminal de Cascadura, a linha 875 (Campo Grande-Cascadura) é a única sem ponto final sinalizado. Só quem já conhece sabe onde embarcar. “Ela para atrás daquele poste”, indicou um passageiro. É também a única linha municipal do Rio cujos ônibus ainda estampam cores de empresa (azul, amarela e branca).

 

Curioso é que a 875 é operada pela Transportes Padre Miguel (nome fantasia da Feital Transportes e Turismo Ltda), que não participou da licitação de 2010 concedendo a quatro consórcios o direito de explorar o serviço rodoviário no Rio. E eis um grande mistério: nem a Secretaria de Transportes e nem a polícia conseguem tirá-la de circulação. Oficialmente, trata-se de uma linha fantasma.

 

Outra incógnita é por que, mesmo desautorizada, os ônibus da Feital têm validadores eletrônicos da RioCard.

Para os passageiros, de qualquer modo, a linha é importante. “Nas outras opções a gente gasta mais”, diz Shirley Santos. O apelido de ‘Fatal’ se justifica desde 2010, quando um veículo perdeu duas rodas em Santíssimo, e uma delas matou o aposentado Antônio Pinto da Silva Filho, de 55 anos.

 

Há mais problemas. “Os ônibus são sujos e quebram sempre. É uma linha pirata e todo mundo sabe disso”, disse o passageiro Edson Macedo, no ponto final de Cascadura. O pensionista Marco da Silva reforça a queixa. “Os ônibus balançam muito, não têm câmeras, não cumprem os horários, e já vi motorista bêbado”.

 

Em 2014, o desembargador Cláudio Dell’Orto, da Décima Oitava Câmara Cível, derrubou decisão do desembargador Jorge Luiz Habib, que tinha determinado à Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) o restabelecimento das linhas 875 e 856 (Marechal Hermes – Base Aérea de Santa Cruz). O município recorreu, defendendo que as permissões eram precárias, podendo ser revogadas a qualquer momento. Na última sentença, há mais de um ano, Dell’Orto entendeu que a concessão de 2010 e a extinção das antigas permissões não foram irregulares, suspendendo a liminar anterior.

Jogo de empurra entre Rio e Estado

 

Alfredo Monteiro Machado, 61 anos, é sócio da Feital com o irmão, Rogerio Machado, 59. A empresa recorreu da última decisão judicial ao Superior Tribunal de Justiça e aguarda análise da corte.

“Fomos a única empresa permissionária do município homologada pelo ex-prefeito Cesar Maia na época. Nosso contrato é válido por dez anos e prorrogáveis por mais dez, por isso continuamos operando e por isso não participamos da licitação em 2010”, explicou Alfredo.

 

No site do Detran-RJ, as placas de dois ônibus nos quais a equipe de reportagem viajou (KOA-4561 e LUU-5959) aparecem com sete restrições judiciais e quatro administrativas. O órgão se recusou a explicar os motivos.

“Quando ocorre uma ação trabalhista, a empresa adquire restrição sobre o veículo. O ônibus pode transitar tranquilamente, só não posso vendê-lo”, argumentou Alfredo. A Secretaria Municipal de Transportes informou que encaminhou denúncia à Secretaria de Segurança Pública, solicitando apoio na esfera policial, “uma vez que os fiscais da SMTR não têm poder de polícia”. A Secretaria de Segurança comunicou que enviou ofício à Polícia Civil. A Polícia Civil e o Ministério Público não se pronunciaram.

 

Segundo Alfredo Machado, a 875 tem entre 15 e 20 ônibus e a empresa possui 250 funcionários. O Detro informou que a Feital opera regularmente a linha intermunicipal 575P (Itaguaí — Padre Miguel), com oito carros.

Guerra de versões sobre validadores

 

A SMTR encaminhou um ofício à Fetranspor em 6 de maio, que ainda não foi respondido, determinando a retirada dos validadores da RioCard da Feital. Já a Rio Ônibus afirmou que os dados dos validadores da Feital não são mais processados pelo sistema de bilhetagem desde então. Sócio da Feital, Alfredo Monteiro Machado esclareceu que os aparelhos foram comprados antes de 2010 e ressaltou que recebe diariamente os repasses das passagens validadas pela RioCard.

 

O DIA constatou que o valor de R$ 3,40 foi debitado nas viagens realizadas pelo repórter. “Só se eu fosse louco para colocar os ônibus na rua e não receber o valor das passagens.” O sócio apresentou notas de serviços de manutenção dos validadores, prestados pela fabricante Prodata Mobility. A Prodata e a RioCard não se pronunciaram.

Segundo a SMTR, a 875 deixou de existir em 2010 porque a ligação Campo Grande-Cascadura é das linhas 689, 970 e SV 790.

 

Fonte: O Dia (Rio)

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