Licitação é aposta para solução de transporte em Salvador

A licitação das linhas de ônibus de Salvador, que terá os vencedores anunciados ainda esta semana, está sendo tratada pela prefeitura como a solução para os problemas de transporte público da cidade.

 

A intenção é desafogar os pontos e os ônibus da superlotação a partir da reestruturação do atual sistema de linhas. De acordo com o secretário de Urbanismo e Transportes de Salvador, Fábio Mota, essa reestruturação, batizada pela prefeitura de “plano de otimização”, será colocada em prática em até um ano, a contar da assinatura do contrato pelas empresas. Este também é o período para que seja finalizada a transição entre as atuais e as novas concessionárias.

 

Enquanto isso, explica o secretário, estudos técnicos serão feitos e usados como base para definir quais modificações serão feitas no sistema. É a prefeitura que vai determinar aos consórcios quais diretrizes deverão ser seguidas nos estudos, a serem realizados por especialistas contratados pelas empresas.

 

Linhas longas

“Linhas serão eliminadas, reduzidas e outras podem vir a ser criadas”, antevê Mota, atribuindo o descontrole do sistema à falta de ordenação.  Hoje, há linhas longas, como a Paripe-Aeroporto (Praia Grande), que circula por 18 localidades e faz o passageiro levar até duas horas para fazer o trajeto.

 

“É por conta da falta de um plano de otimização que é possível encontrar algumas linhas lotadas e outras vazias na cidade”, analisa o secretário. Além da reestruturação das linhas, o uso de novas tecnologias, previsto no edital de licitação, também é apontado como ferramenta capaz de trazer melhoras para o transporte de Salvador.

 

A frota de ônibus, por exemplo, passará por atualização. Até 2016, a idade média dos veículos que circulam na cidade deverá ser de três anos e meio, conforme o que está previsto no edital. Com motores Euro V, que produzem menos poluentes atmosféricos, os novos ônibus contemplam questões ambientais. E, segundo Fábio Mota, serão 100% adaptados para deficientes físicos.

 

Uma central de monitoramento do sistema, com sede na prefeitura, vai utilizar GPS instalados nos veículos para controlar índices de qualidade, itinerários, horários de viagens, entre outros itens.

 

Informações e obra

Com isso, os passageiros terão acesso às informações do coletivo desejado, em tempo real, pelo celular ou por outros aparelhos eletrônicos. Entre as informações que serão publicizadas estão a localização exata dos veículos e o horário programado para passar em cada ponto.

 

Para permitir que as previsões disponibilizadas sejam realmente cumpridas, obras de infraestrutura viária prometem dar sustentação aos mecanismos previstos no edital de licitação. Nesse sentido, a grande aposta da prefeitura é a construção do BRT Lapa-Iguatemi, corredor exclusivo para ônibus que ligará duas das áreas mais movimentadas da cidade (Estação da Lapa e Iguatemi, principal “gargalo de trânsito” de Salvador).

 

Com esta obra, além de resolver o problema do transporte por ônibus, a prefeitura pretende dar fluidez ao trânsito e beneficiar usuários de carros e motos. O projeto prevê a construção de quatro complexos de viadutos.

 

Especialistas duvidam de melhorias

Enquanto a prefeitura aposta na licitação dos ônibus para resolver o problema de transporte, os especialistas da área de mobilidade duvidam das melhoras projetadas. O arquiteto e urbanista Juan Pedro Delgado, doutor em engenharia de transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo, define a concorrência como “precipitada”.

 

Para Delgado, a licitação do sistema de ônibus soteropolitano deveria ser parte de um Plano de Mobilidade, “definido com participação de técnicos e da sociedade civil”. “Essa licitação não pode estar descolada das outras modalidades de transporte. Precisamos definir uma política de mobilidade e construir uma rede integrada, apontando como cada modal vai trabalhar”, argumenta o especialista, criticando a “falta de planejamento” na área. Ainda conforme Delgado, a visão tratada no edital de licitação é “exclusivamente rodoviária, pensando apenas no transporte sobre rodas de uma cidade”. É diferente, segundo ele, de outras capitais, “como Recife e Belo Horizonte, que possuem redes metropolitanas de transporte”.

 

Efeito reverso

Também estudioso da área, o professor da disciplina economia dos transportes, da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ihering Alcoforado, analisou a licitação durante a fase de consulta pública e propôs alterações. De acordo com Alcoforado, as exigências feitas pela prefeitura às concessionárias em busca da eficiência do sistema pode ter efeito contrário ao planejado. Para ele, o aumento dos custos para o concessionário (por conta da outorga onerosa e de outras exigências técnicas) pode funcionar como um desincentivo à melhora da qualidade do serviço.

 

“Esta eficiência técnica pode e deve ser obtida por meio de uma degradação do serviço, por meio da qualidade dos ônibus, da redução das linhas e da frequência, do aumento do número de passageiros por viagem em ônibus desconfortáveis etc”, pontua.

 

(Fonte: A Tarde)

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