Comperj pode ficar para o fim de 2016

Um dos principais empreendimentos da Petrobras em construção, o Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj) – que por enquanto tem apenas uma refinaria definida – é o reflexo da situação atual de aperto de caixa da companhia e da consequente crise financeira de parte da cadeia de fornecedores da estatal. Com a desistência, e até mesmo a quebra, de algumas empresas contratadas, a refinaria, de US$ 13,2 bilhões, pode sofrer novo atraso no seu cronograma.

 

A Petrobras mantém a previsão de início de operação do Comperj para agosto de 2016 – mesma data estipulada pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas o próprio governo demonstra sinais de que a obra pode atrasar. De acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2023, cuja versão preliminar foi divulgada na semana passada pela Empresa de Pesquisa Energética e o Ministério de Minas e Energia, a refinaria deve iniciar o funcionamento apenas em dezembro de 2016.

 

“O Comperj, em construção em Itaboraí (RJ), foi originalmente planejado como uma refinaria de petróleo voltada para a produção de derivados petroquímicos. Entretanto, seu projeto inicial foi alterado em função da evolução do mercado, e o novo projeto será constituído por dois módulos. O primeiro módulo, está previsto para entrar em operação em dezembro de 2016 e o segundo, em janeiro de 2024”, diz o plano divulgado pelo governo.

 

O atraso pode ser ainda maior, na avaliação de fornecedoras da Petrobras. Isso porque a estatal fará três novas licitações para execução de serviços remanescentes de obras abandonadas por empresas que desistiram dos contratos. As desistências foram motivadas principalmente por problemas financeiros causados por divergências nos aditivos contratuais entre as contratadas e a estatal.

 

As licitações são para a construção e montagem do sistema de flare, torre de resfriamento e prédio administrativo, que seriam feitas pela Fidens Engenharia; a construção e montagem das interligações e tancagem, que estavam sob responsabilidade do consórcio Jaraguá / Egesa; e a construção e montagem do Centro Integrado de Controle (CIC), que estavam a cargo da Multitek Engenharia.

 

“Um processo de licitação desses leva, no mínimo, seis meses para ser realizado”, disse o executivo de uma fornecedora da Petrobras, que pediu anonimato. Ele lembrou ainda que esse prazo pode ser estendido, caso participantes movam recursos contra o resultado da concorrência, e ressaltou que é preciso considerar ainda o período de execução dos serviços.

 

A Petrobras, no entanto, não considera a possibilidade de alteração no cronograma da refinaria. “As novas contratações resultarão na entrega das instalações sem atrasos, isto é, em prazo compatível com a data de partida do Comperj”, afirmou a companhia, em nota ao Valor.

 

O rompimento dos contratos também causou outro reflexo: a queda do número de trabalhadores no canteiro de obras. Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário (Sinticom) em São Gonçalo e Itaboraí, Manoel Vaz, a mão de obra no local foi reduzida em cerca de 8 mil pessoas desde maio, totalizando agora cerca de 15 mil funcionários.

 

A Petrobras contesta esses números. “Ocorreu uma pequena redução de trabalhadores no Comperj. A quantidade de trabalhadores na obra em maio de 2014 era de 28.600. Neste mês de setembro, o total de trabalhadores no Comperj é de aproximadamente 26.200”, informou a estatal, acrescentando que a redução verificada nos últimos meses deve-se à conclusão de algumas atividades no empreendimento.

 

Outro fator de preocupação com relação ao Comperj é a obra do emissário de efluentes do empreendimento, em Maricá (RJ), na Região dos Lagos. A obra foi suspensa no fim de agosto pela prefeitura, que alegou que a Petrobras alterou o projeto sem o aval do órgão e não fez o pagamento da verba compensatória.

 

A Petrobras informou que os recursos de compensações relativas à obra do emissário de efluentes estão provisionados e devem ser investidos na área de influência direta do projeto. “A companhia está em contato com a prefeitura municipal de Maricá para esclarecimentos, e espera, em breve, poder definir as alternativas técnicas que viabilizarão o início dos repasses.”

 

A prefeitura de Maricá afirmou que as obras devem recomeçar hoje, conforme acordo estabelecido pelas duas partes em reunião na última semana. “Na ocasião, foi decidido que a primeira parte do repasse de R$ 20 milhões será compensada entre outubro e novembro deste ano”, informou a prefeitura, em nota.

 

De acordo com a Petrobras, o avanço físico das obras do primeiro trem de refino (primeira etapa) do Comperj está em 75%. Com investimento estimado em US$ 13,2 bilhões, segundo o plano de negócios e gestão 2014-2018 da Petrobras, o primeiro trem de refino terá capacidade de processamento de 165 mil barris diários e vai produzir nafta petroquímica, querosene de aviação (QAV), coque, GLP (gás de cozinha) e óleo combustível.

 

Na concepção inicial do projeto, o primeiro trem de refino (primeira etapa) do Comperj estava previsto para começar a operar em 2013. O segundo trem, que atualmente está “em avaliação” e não tem uma data oficial de implantação pela estatal, estava previsto inicialmente para 2018 e adicionaria outros 300 mil barris diários de capacidade de processamento à refinaria.

 

A etapa da petroquímica do Comperj, porém, ainda está indefinida. Com o avanço da exploração e produção de gás natural não convencional com custo mais baixo nos Estados Unidos, a produção petroquímica a partir do gás no Brasil perdeu competitividade em âmbito global, o que levou a Petrobras e a Braskem a reverem a implantação do projeto. Atualmente, essa fase está em análise pelas duas empresas.

 

Para o presidente da Associação Brasileira das Consultorias em Engenharia (ABCE), Mauro Viegas Filho, a situação do Comperj contribui para o ritmo fraco do mercado de engenharia brasileira na área de óleo e gás. Segundo ele, os investimentos em refinarias estão parados e o pré-sal demanda mais equipamentos e serviços estrangeiros. “O que dava volume eram as refinarias, mas as duas ‘premiuns’ [refinarias Premium I e II, no Maranhão e Ceará] estão passando por mudanças e o Comperj também está devagar”, afirmou o executivo.

 

(Fonte: Valor Econômico)

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